|
|
31/12/2010
- APPIO PRESTA CONTAS NA RÁDIO FÁTIMA
O deputado Francisco Appio, entrevistado pelo repórter Aldoir
Santos - Rádio Fátima de Vacaria – fez uma prestação de contas de
sua atividade parlamentar que chega ao fim em 31 de janeiro e das
perspectivas de seu futuro político. A transcrição revisada está
reproduzida abaixo:
ENTREVISTA A RÁDIO FÁTIMA DE VACARIA
Aldoir: Quando foi a sua primeira eleição?
Appio:
Começamos em 1986. Ingressei na vida política, porque da vida
pública já participava (o radialista faz vida pública) desde 1963,
quando foi meu ingresso no rádio. Mas na vida partidária foi em 15
de novembro de 1985. Fui convidado para ser candidato a vereador
pelo PDS, logo em seguida, dada a repercussão do meu ingresso na
vida partidária, fui convidado para ser candidato a prefeito e
pouco tempo depois candidato a deputado estadual.
Avaliamos que a entrada
na eleição de 1986 era fundamental e disputamos a eleição do Plano
Cruzado, fiz uma grande votação, mas o partido caiu de vinte
quatro cadeiras para dez na Assembleia Legislativa. Depois veio a
eleição para prefeito em 1988, eleição histórica e polêmica, mas
faltaram alguns votos e deixamos de chegar ao paço municipal.
Finalmente em 1990, então já eleito pela região, pude iniciar o
primeiro de cinco mandatos.
Aldoir: Se o senhor fosse resumir os principais projetos desses
cinco mandatos, quais foram e o que mudou na vida da população da
região de Vacaria?
Appio:
Como não se pode atribuir apenas ao deputado distrital todos os
males, tão pouco todas as coisas boas, lhe dão o mérito com
exclusividade. Mas não é pura coincidência que nesses vinte anos
fizemos o asfalto da BR285, da estrada RS122 para Antônio Prado,
do aeroporto, da BR470, em Lagoa. E melhoria dos hospitais que
eram bem piores antes disso.
Encarnamos o deputado
distrital e valorizamos o mandato da região, ao longo de várias
eleições mostrando ao eleitor a vantagem de votar em candidato da
terra. Não foi diferente desta vez, o eleitor continuou votando em
candidato local, só que pulverizou em vários candidatos. Não há
como ter duas cadeiras em nossa região.
Realizamos a aproximação
do Parlamento ao eleitor, com a valorização da nossa cultura
regional, produção do nosso agroturismo.
Valorizamos a atividade
do caminhoneiro, com o SOS caminhoneiro, infelizmente o único
parlamentar a defender esta categoria. Defendemos questões
polêmicas regionais, como o combate às drogas, que tanto afetam as
famílias, a queima de campo, necessária na região, a
infraestrutura de estradas, pontes e aeroportos e as emancipações.
Criamos novos municípios
que contiveram o êxodo rural. Foram vários (processos elaborados
em nosso Gabinete na Assembleia) que derrubaram o temor de que
trariam degradação da economia regional. Pelo contrário, atraíram
mais recursos via emendas parlamentares e via fundo de
participação dos municípios e do ICMS, pelo valor da produção. Os
distritos transformaram-se em municípios sem cortar o cordão
umbilical com o município mãe.
Desempenhamos ao longo
de vinte anos, como deputado distrital, quase tudo aquilo que o
eleitor desejava: não se afastar, estar comprometido, defender as
causas não importa qual o segmento, defensor de todas as
categorias e como dizia num jargão do tempo do rádio, narrando
futebol: “vestir a camisa da terra da gente”.
FALTOU DIZER:
A Isenção do ICMS em 2005, assinada pelo Governador Rigotto,
ampliou a geração de empregos na fruticultura. Nem tanto nos
pomares, mas nas câmaras frias, com empregos mais qualificados,
com a introdução da armazenagem com atmosfera controlada.
FALTOU DIZER:
Na saúde, abrimos pousadas/albergues em Caxias do Sul, Passo Fundo
e Porto Alegre, mantidas por cinco anos e fechadas em respeito à
lei. Prestamos serviços para milhares de pessoas na hospedagem e
transporte.
FALTOU DIZER:
Deixar o rádio foi um erro. As pessoas estavam acostumadas com
aquela companhia diária. Mas foi culpa da briga com os preços dos
pedágios. Fui rifado. Era eu ou eles. Ganharam eles, que têm
dinheiro, muito dinheiro e ameaçavam tirar a propaganda da rádio.
FALTOU DIZER:
Vale a pena defender os caminhoneiros. Fui o único e por mais de
trinta anos. Dizem que caminhoneiro não vota, mas defendi esta
causa, pelos problemas que eles enfrentam nas estradas. Quando
votarem (on-line, em qualquer lugar do país), serão mais
valorizados.
Aldoir: O Senhor esteve um período em Brasília, como foi esta
experiência federal?
Appio:
Muito boa e com resultados muito bons. Nós tivemos a oportunidade
de trazer vinte dois milhões de reais em emendas que foram
carimbadas para Vacaria e entorno. Poderiam ter ido para outros
municípios, mas ficaram aqui, graças à presença do deputado
distrital. Na época, eram 3 a 4 milhões/ano, hoje são vinte
milhões de reais para cada deputado federal por ano. Critico a
omissão de deputados federais que buscam votos em nossa região e
não dão o retorno, deveriam investir mais em emendas em nosso
município, eles dispõem de vinte e dois milhos de reais por ano.
Pudemos alavancar a hemodiálise, iniciada pelos meus colegas do
Banco do Brasil, grupo do qual fazia parte com os saudosos Alzemar
Brito Boschi, Darci Barbosa, e outros que foram para o Oriente
Eterno, além do Claudionor Dian, Olavo Caieron, Danilo Coelho,
José Ari, Clodomiro Boeno, entre outros. Ampliamos a hemodiálise,
em cada ano de nosso mandato desde 1991 até 2003. Naquele ano na
Câmara Federal, com uma emenda de mais de 735 mil, compramos
dezenove máquinas e iniciamos a Associação dos Renais, que hoje
tem sede própria.
Promovemos a nossa
cultura regional atraindo recursos para parques de rodeios,
conchas acústicas, portais turísticos e 58 publicações com mais de
meio milhão de exemplares, distribuídos gratuitamente.
A inclusão digital foi
outro desafio. Não se falava em inclusão digital antes de 2004,
mas conseguimos com recursos substanciais equipar laboratórios de
escolas municipais de 39 municípios. Todas as escolas de Vacaria
também foram equipadas, além da abertura da sala virtual com
Internet grátis para estudantes.
O deputado distrital
retomou a luta pela BR470 e pela BR285. Em 1991, tínhamos perdido
as BRs, estadualizadas no Governo Collor. Graças à intermediação
do líder do governo Vitor Faccioni mobilizamos a região e
convencemos o presidente Collor a federalizar tanto a 285 quanto a
470 e através de emendas de bancadas foram alocados recursos, para
que houvesse a retomada das obras, o que felizmente aconteceu.
No legislativo, tive a
oportunidade de relatar e votar projetos polêmicos, mas a busca de
recursos foi importante, sim.
FALTOU DIZER:
A resposta positiva apareceu com reeleições facilitadas, baixo
custo de campanha e elevado nível de aprovação. Recebemos o Mérito
Legislador 2008, no Senado, prêmio pela lei 12.872 (acabou com os
telefones celulares não identificados); Troféu o GAÚCHO, a maior
distinção do Tribunal de Contas do Estado, em 2010; o troféu
Fernando Pessoa, do Instituto Cultural Português (pelas
publicações nos cadernos culturais), e reconhecido como Cidadão de
Vacaria, Campestre, Muitos Capões, Pinhal da Serra, Esmeralda,
Monte Alegre dos Campos, Antônio Prado e Bom Jesus, por leis
aprovadas pelas câmaras de vereadores.
Aldoir: O Senhor deixa Assembleia Legislativa, mas não vai deixar
a vida político partidária, até porque é uma expressiva liderança
do Partido Progressista em Vacaria e na região. O senhor já começa
a examinar o cenário político da região junto com o partido para a
próxima eleição municipal?
Appio:
Pouco antes do Natal, com Afonso Viapiana, nosso vice-presidente
em exercício, pelo licenciamento do Jonas Jacobi dos Santos, com a
presença de membros da executiva, fizemos análise apenas
preliminar. Primeiro é preciso reestruturar o partido, isto é,
oxigená-lo de forma permanente, processo que deveria ter data e
hora num calendário anual, ou semestral, não só do meu partido, de
todos os partidos. Todos os partidos políticos, exceto o PT que
foi o grande vitorioso, elegendo presidente, governador e prefeito
de Vacaria, todos os outros partidos precisam reexaminar sua
estratégias, estimular a participação e a militância. Nós do
Partido Progressista, que acabamos de perder o único mandato que
tínhamos, naturalmente não falamos ainda em eleição municipal, mas
em reorganização partidária.
Devo continuar na
política, pois do Banco do Brasil me afastei definitivamente
(1995, no PDV) e deputado gaúcho não se aposenta, apesar de cinco
mandatos. Vamos buscar uma nova função, mas não do emprego pelo
emprego, que naturalmente encontraria fora da política, onde tenho
vários convites. Desejo continuar na vida pública para continuar
atendendo esta busca dos recursos para a saúde. Pelo hospital,
ainda ontem brigávamos, no bom sentido, com o secretário da
Fazenda, pela liberação da emenda de um milhão e duzentos mil para
a construção de um novo bloco cirúrgico, um compromisso da
governadora Yeda com o deputado da região. Quero continuar na
defesa do campo e da lavoura, da maçã aos pequenos frutos, pela
produção de grãos, pela pecuária (polêmica da queima de campo),
pela cultura regional.
Estamos
lançando mais uma publicação “Vacaria 160 anos”, que
pode ser acessada na Internet, clicando a capa (estranha ou
curiosa maçã de chapéu), é a maçã gaúcha, quem sabe como sugere o
chapéu precisa de proteção.
Nós tivemos um golpe violento na fruticultura regional, que é um
do carro chefes ao lado dos grãos na nossa economia, e nós
precisamos, naturalmente, continuar essa luta.
E tem esta questão cruel
do cartel dos pedágios. Evitamos a prorrogação, evitamos o aumento
de tarifas, mas esta deve ser uma vigilância permanente.
E tem a Usina do Pai
Querê, não queremos que se repita o episódio da BAESA, onde o
grande empreendimento que causou impacto ambiental não trouxe
compensações expressivas. Que não se repita neste novo projeto,
que ainda esta na fase de licença ambiental, a inserção de
compromissos compensatórios que serão discutidos e assumidos, mas
não cumpridos. Só para lembrar, quando da Baesa, juntamente com
então vereador Romeu Biazus, colocamos uma emenda para que a
compensação ambiental para Vacaria fizesse o tratamento das águas
do Uruguaizinho e do Carazinho, importantes para o nosso
saneamento básico. A emenda foi feita, aprovada, fez parte do
relatório, mas a Baesa não cumpriu. Não tivemos força para fazer
cumprir, mas não permitimos sua inauguração.
No
caso da Pai Querê precisamos de regras mais duras, à luz do Diagnóstico
das
Águas dos Campos de Cima da Serra. Lançamos recentemente o
resultado da pesquisa das águas na região (capa ao lado), a meu
juízo o maior dos projetos, apesar de a hemodiálise ter sido
importante. O diagnostico das águas, tanto subterrâneas como
superficiais, afasta dúvidas e temores, mas não descarta a
obrigação do seu controle e tratamento. Estávamos desconfiados da
presença de contaminação, não apenas pelo uso do agrotóxico, mas
também pela falta de saneamento, o pior dos problemas, pois
reflete na saúde pública.
Deverei continuar, não
sei onde, a partir de fevereiro, mas vigilante nestas bandeiras
que recebi quando da primeira eleição em 1990.
Aldoir: Deputado Appio, especula-se muito nos bastidores da
política uma possível, uma provável coligação entre o PP e o PMDB,
adversários históricos aqui em Vacaria, inclusive com alguns
nomes, pelo lado do PP o seu nome, pelo lado do PMDB nomes como da
vereadora Elisabete, do vereador Douglas. Qual a análise deste
cenário?
Appio:
A gente não descarta nada, não sou o dono do Partido Progressista,
não há donos no Partido Progressista, há vontades, projetos,
estratégias a serem montadas, pesquisas a serem feitas, programas
de governo a serem debatidos. Hoje, no cenário que estamos
vivendo, os partidos estão tão próximos que permitem coligação do
PP com o PT, do PDT com o DEM em todas as partes, mesmo na região.
Ainda conservamos em Vacaria uma estrutura muito conservadora, com
três, quatro pilares de partidos políticos, que raramente se
juntam em torno de um projeto Pensando Vacaria. Não sei se é
chegada à hora de fazer isso, mas não vai tardar o momento em que
as pessoas vão pensar num projeto maior, não pensando no partido
político, no crescimento partidário, mas Pensando Vacaria. Terão
que abrir mão de algumas vontades pessoais, de alguns interesses
partidários, e consagrar a ideia de que só uma grande união poderá
dar a Vacaria o impulso necessário para o seu crescimento. Não
desmereço o fato de que o PT chegou ao governo municipal, pelos
méritos do Prefeito Elói, mas não desprezo a polêmica atuação dos
candidatos que disputaram a eleição, tampouco quando dizem que não
foi Elói que ganhou, mas que Palombini e Pegoraro perderam. Mas
essa é uma questão superada, nós não estamos no segundo turno
desta eleição, deve servir como lição. Nós temos que pensar que o
PT tem nas mãos o governo do Estado e o governo federal e
certamente fará uma grande administração. Não lhe faltam recursos.
Não tem mais aquele discurso de que a governadora é de outro
partido, como foi nestes oito anos do Lula. Agora tem a faca e o
queijo na mão e eu desejo veementemente que o Elói consiga esses
recursos para fazer de seu mandato um grande mandato, como foi do
Pegoraro, como foi do Palombini, como foi do Mezari, como foram de
tantos outros.
Entretanto, não descarta
a necessidade de uma oposição para fiscalizar, para criticar
construtivamente, e quem sabe isso possa gerar uma união de
interesses partidários. Agora, não falo em nomes. Não dá para
falar em nomes. Eu mesmo não sei se serei candidato. Sou um
candidato do partido, estarei à disposição do partido. Pode ser
que concorra a prefeito se o partido desejar, pode ser que
concorra a vice-prefeito se o partido desejar, pode ser que
concorra a vereador se o partido desejar.
Não quero ficar fora do
processo da vida pública porque abri mão de uma profissão que foi
muito importante para mim no Banco do Brasil (uma grande escola),
abri mão do rádio que é a minha grande paixão, (iniciei minha vida
em 1963), mas abracei a vida pública onde encontrei a
possibilidade de fazer alguma coisa, de transformar a retórica em
atos e ações pró-ativas.
Claro que fiquei triste
com o resultado. Fiquei triste naquele instante. No resultado,
quando percebi que tinha feito 34.400 votos, mais do que muito dos
que se elegeram, pensei: “olha é sério demais pra rir, e eu já
estou crescido demais pra chorar”. Mas não há mágoas, não há
ressentimentos, há sim uma convicção de que erramos na estratégia.
Nesta eleição tínhamos projetos, alguns individuais, pessoais,
outros coletivos, mas erramos na pulverização. Então, no erro a
gente tenta acertar o que vem por aí nos próximos dois anos.
FALTOU DIZER:
Precisamos avançar na reforma política em pelo menos três
aspectos:
Financiamento de
campanha precisa mudar, adotar o financiamento público, combater o
caixa 2, limitar os gastos (as campanhas são milionárias). Quando
alguém abre o site do TER e lê as prestações de contas, fica
assustado com o que é declarado, apesar da Lei do Abuso do Poder
Econômico. Bati nas portas da FIERGS, FEDERASUL, FECOMERCIO,
FARSUL para pedir indicações de doadores, mas silenciaram. Senti
que estava mais difícil do que o esperado (pela oposição à não
prorrogação dos contratos de pedágios, CPI dos Pedágios, etc)
quando telefonei para uma grande empresa gaúcha, e me disseram que
não estava na lista. O Gerdau que ajuda todos os candidatos, me
ajudou nas eleições anteriores, mas nesta fiquei de fora.
Fidelidade Partidária
deve ser instrumento de regulação das candidaturas. Se os partidos
devem ser fortes, com princípios definidos, por que não os
candidatos. Acabaria com as legendas de aluguel. Por exemplo:
fazer dobradinha com candidatos de outros partidos deveria ser
examinada por uma Comissão de Ética.
Regionalizar a campanha
no rádio e TV, pois a forma atual impede a comunicação dos
candidatos com seus eleitores, para a prestação de contas e
propostas. Isso explica o êxodo eleitoral para as grandes cidades,
onde a mídia é maior e dá mais visibilidade aos candidatos. Veja o
caso de Caxias do Sul que elegeu 4 ESTADUAIS e 2 FEDERAIS. Em
Vacaria, fiquei fora do ar (rádio) nos últimos quatro meses,
anteriores à eleição. |