Discurso do Deputado Francisco Appio
70ª Sessão Ordinária, em 21 de Agosto de
2007
Tenho vindo a esta tribuna
sistematicamente às terças-feiras para relatar de forma
resumida os depoimentos tomados na CPI dos Pólos de
Pedágio.
Ontem, esta Casa, nessa comissão,
presidida pelo deputado Gilmar Sossella e cujo relator é
o deputado Berfran Rosado, ouviu o engenheiro Sérgio
Bohrer Simões, um dos mais antigos servidores do DAER,
responsável pelo Departamento de Concessões de Rodovias,
um homem ligado ao diretor Eudes Missio.
Ele traçou um retrato falado do programa
de concessões, que foi aprovado aqui na década de 90 e
que, hoje, está sub judice. Contribuíram para isso a
falta de transparência, as tarifas absurdas, os indícios
de que os contratos não estão sendo cumpridos, as
suspeitas, que ao longo dos anos partidos de oposição
alimentaram, de que as concessões teriam sido mal
contratadas, mal licitadas.
Enfim, é um tema polêmico, e diria até
que não há assunto mais intrigante do que este. Parece
que dá urticária falar em pedágio.
Não leio nenhuma linha nos jornais sobre
essa questão e não vejo a presença da imprensa. Percebo
a preocupação do governo, mas isso não tem nada a ver
com o governo; noto a preocupação dos ex-governadores,
mas a questão não tem nada a ver com os ex-governadores;
e vejo a preocupação desta Casa, pois se trata de
responsabilidade, de dever.
Sempre disse aqui – e não custa repeti-lo
– que ninguém faz CPI por deleite pessoal, por prazer
pessoal, mas por dever de Estado.
Ontem, o Sr. Sérgio Simões revelou aquilo
que suspeitávamos: o chamado desequilíbrio a favor das
concessionárias, com o número que seria da ordem de 650
milhões de reais, é pura peça de ficção. Não existe,
nunca existiu. Ninguém apareceu como o pai dessa
criança, mas transitou, ao longo destes três ou quatro
meses, uma ameaça: Ou prorrogam os contratos, ou o
Estado terá que arcar com uma indenização milionária.
É mentira, pura mentira que ninguém está
defendendo o grande negócio. Sim, porque concessões é um
grande negócio, tanto que um grupo paulista poderoso
adquiriu 75% das concessões, mesmo sabendo que os
contratos terminam em 2013 – ou haveria o compromisso de
prorrogação até 2028?
Só Deus sabe. Ninguém na CPI tem uma bola
de cristal e muito menos nesta Casa, mas é uma peça de
ficção.
Não falem mais, pelo amor de Deus! Não
falem mais que as concessionárias têm direito a uma
brutal indenização. Aliás, há uma, sim, que está em
liquidação de sentença, que é aquela referente à lei nº
11.460, votada nesta Casa, que pretendeu minimizar o
problema das cidades-sede, assim como o governador
Requião acaba de fazer no Paraná, sancionando uma lei
que isenta veículos com placas dessas cidades.
Quem mora em Porto Alegre não sente, não
avalia o custo disso. Quem mora no interior, obrigado a
pagar pedágio quando sai da cidade porque trabalha em
uma área rural a 5, 10 quilômetros, porque dá aulas numa
escola rural ou porque tem de levar um filho para o
hospital ou a mulher para o médico, sente quanto custa o
pedágio na ida e na volta.
Naquela lei nº 11.460, que foi revogada
por decisão deste plenário em razão do forte lobby das
concessionárias, havia o compromisso da retirada da ação
indenizatória. Foi dito pelo diretor-geral do DAER,
Gilberto Cunha, na CPI – está nos anais e está gravado –
que recebera a informação do diretor de Concessões e
Pedágios do DAER, Sérgio Simões, o mesmo respeitável
engenheiro que depôs ontem. No entanto, ontem, Sérgio
Simões negou.
É evidente que nós não vamos propor uma
acareação. Não estamos tratando com marginais, bandidos,
delinqüentes. São pessoas respeitáveis. Um ou outro se
enganou. Só que quem vai pagar a conta desses enganos é
a sociedade gaúcha.
Havia, sim, Sr. Presidente, acordo que
inspirou esta Casa a aprovar o termo aditivo no ano
2000. Zerou-se tudo e o termo aditivo foi aprovado,
dando às concessionárias o direito da cobrança na ida e
na volta e mutilando o programa que aqui havia sido
apreciado em primeiro lugar.
Essa negativa do Sr. Sérgio Simões me
leva a pensar que o ambiente lá no DAER está mais ou
menos como está na Agergs. A primeira colocada no
concurso da entidade, a respeitada economista Denise
Zaions, na semana passada, deu aqui um detalhado
depoimento, que contribuiu para avaliarmos o que está
acontecendo com a Agergs, o DAER e as concessões. Agora,
ela está sofrendo injusta pressão, retaliação.
Aliás, aconselharia o nosso ex-deputado e
ex-ministro Alcides Saldanha que tomasse providências.
Não é possível que um servidor público, cumprindo a sua
obrigação, o seu dever, sofra represálias pelo que disse
à CPI, estando sob juramento como testemunha de dizer a
verdade, tão-somente a verdade.
As pessoas envolvidas ficam, de certa
forma, numa saia justa, devendo explicações sobre suas
declarações.
Mas, ontem, ficou claro, deputada Marisa
Formolo – que logo fará uma manifestação sobre o tema –,
que o poder concedente não fiscaliza. Lavou as mãos como
Pilatos, entregou a bomba para a sociedade gaúcha e
disse para as empreiteiras: Façam o que quiserem,
cobrem, comprem, gastem que o povo paga.
A Agergs diz que não tem instrumentos
legais para fiscalizar e para punir. É uma agência
reguladora que, infelizmente, sou levado a pensar que
não passa de um bolo de noiva. Só que, daqui a pouco,
acabam apagando as velas desse bolo de noiva.
Em relação ao usuário, a associação não
está contente. As concessionárias também dizem que não
estão contentes. Mas então, santo Deus, o que é isso que
temos aqui no Rio Grande do Sul se ninguém está
satisfeito?
É preciso encontrar uma solução, e a CPI
haverá de encontrá-la.
Aliás, tem gente satisfeita, sim. Foram
34 milhões de reais pagos em propaganda, marketing e
consultorias jurídica e tributária.
Há pessoas satisfeitas, sim. A Agergs
recolheu 13 milhões de reais em taxas; o DAER, 21
milhões de reais em oito anos.
A União, o governo do presidente Lula,
não colocou um centavo em mil quilômetros de rodovias
nesses oito anos.
Os ministros, os diretores do DNIT devem
estar felizes da vida: Aqueles
gaúchos nos livraram, e aí nós podemos colocar dinheiro
no Nordeste; lá eles assumiram mil quilômetros. A
gauchada paga. Não precisamos colocar mais nada.
O governo do Estado também está
satisfeito com isso. Não precisa aplicar nada em 800
quilômetros. De lambuja, ainda recebe dinheiro para o
DAER e para a Agergs. As prefeituras e os prefeitos
estão felizes. São 56 milhões de reais em ISSQN. Esse
dinheiro daria, a custos de uma prefeitura no interior,
por exemplo, para fazer 200 quilômetros de rodovias
pavimentadas. A custos de empreiteiras, 56 milhões de
reais, é claro.
Na próxima segunda-feira, teremos aqui a
presença do procurador Celso Três para falar sobre um
tema dominante, que são as vias alternativas. Na
quarta-feira, estaremos em Esteio para mostrar que a
Frente Parlamentar contra a Prorrogação dos Contratos
dos Pedágios não é contra a iniciativa privada, mas que
é a favor da transparência, da fiscalização, de tarifas
módicas e quer que sobreviva, no Estado, o modelo de
compartilhamento da iniciativa privada com o poder
público, sem que, entretanto, alguns poucos se apropriem
do patrimônio público, às custas do suor do cidadão
usuário.