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VINHO OU SUCO DE UVA?
Por Francisco Appio
Deputado Federal
Os dois, responde o cardiologista Protásio Lemos da Luz. O professor coordena uma das equipes de pesquisas da Fundação Zerbine, onde colhe resultados fantásticos na luta contra a arteriosclerose. Estudos reconhecidos internacionalmente apontam as vantagens do vinho tinto ou suco de uva, com seus flavonóides e revestrerol para fortalecer o sistema cardiovascular dos homens e mulheres. A revelação no programa Globo Repórter (TV Globo-18/03/05) foi o bálsamo para as aflições dos produtores de uva e dos cantineiros do sul do país. Mergulhados numa crise provocada pela invasão de vinho estrangeiro (subsídios e contrabando), amordaçados na competição pela carga tributária de 53%, os vinhos só não se transformaram em vale de lágrimas na semana santa, pelo efeito e repercussão das revelações do famoso cardiologista.
REGISTROS NA CÂMARA
O deputado Francisco Appio reuniu-se com o médico, quando este visitou sua mãe e irmãos, em Vacaria, dois dias depois das entrevistas. Pediu a degravação do programa e juntou aos anais da Câmara Federal, em discurso proferido dia 22 em Brasília. Appio está reunindo informações, com estudos anteriores e uma revista publicada por ele em 2002 (leia no final deste portal), para divulgar entre os estudantes e a nova geração. “Os mais velhos já tinham esta receita, que veio com pais, nonos e bisnonos, vindos da Itália no final do século XIX. Agora precisamos mostrar as vantagens do suco de uva, iguais as do vinho, com a diferença de não conterem álcool. Para o deputado Appio, que defende o setor vinícola, desde seu primeiro mandato estadual em 1991, uma taça de vinho ou suco, contém empregos, impostos e saúde. “É um santo remédio, afirma, se tomado modernamente como aconselham os médicos”. No governo Antônio Britto (1994-98) ajudou a construir o Pró-Vitis, que gerou o Ibravin e investimentos na fiscalização e na qualificação da uva e do vinho na serra gaúcha.
“POCA UVA, VINO BONO”
O Rio Grande do Sul é o maior produtor nacional e no Vale dos Vinhedos (Bento, Garibaldi, Veranópolis) ou no Vale dos montes Altos (Flores da Cunha, Nova Pádua, São Marcos, Caxias, Farroupilha, Antônio Prado, Campestre da Serra, Nova Roma), é garantia de emprego e renda certa para 15 mil famílias gaúchas. Em 2002 Appio atuou intensamente junto ao Ministério da Agricultura, para desburocratizar a importação de videiras. Aconselhado pelo então Ministro Pratini de Moraes, visitou a região de Udine, especialmente a Cooperativa Rauchedo, de onde estavam sendo importadas com dificuldades novas espécies de parreiras. Deu certo, novos normas foram adotadas e novas videiras importadas, que com a substituição de técnicas antigas, podas e manejo adequado, garantem maior produtividade. Nas vinícolas, novos equipamentos e pessoal especializado garantem qualidade. Nos últimos seis anos, tivemos cinco estiagens, com queda de produção e aumento de qualidade. Para o vinho gaúcho, a estiagem reduziu a quantidade e aumentou a qualidade. “Como se diz na serra gaúcha : “poca uva, vino bono”.
APPIO DESTINA 200 MIL REAIS PARA PESQUISAS COM VINHO E SUCO
O cardiologista Protásio Lemos da Luz e sua equipe na Fundação Zerbini, pesquisam os efeitos do vinho e suco em camundongos, que certamente permitirão importantes descobertas. O médico não quer adiantar qual a direção das pesquisas, mas assegura que tem a ver com a saúde das pessoas e combate às doenças. Diante da falta de recursos, até mesmo para adquirir vinho para pesquisas (500 garrafas/ano), e para viabilizar os estudos, o deputado federal Francisco Appio destinou 200 mil reais, através de Emenda Individual ao Orçamento da União de 2005. Os recursos estão assegurados nas Emendas Genéricas, apresentadas pelo parlamentar, na elaboração do orçamento, ainda no ano passado.
“Tenho certeza de que nenhum município da serra gaúcha, que represento, se oporá a esta priorização, pois as pesquisas e suas revelações, consolidam a posição do vinho e do suco. “O brasileiro consome pouco vinho, apenas 1,7 litros/per capita/ano. E o consumo de suco de uva é menor ainda. Uma pesquisa séria, reconhecida cientificamente, precisa ser apoiada pelos maiores beneficiários dos estudos, os produtores da serra gaúcha”, conclui Francisco Appio, que já protocolou a emenda no Ministério da Ci~encia e Tecnologia.
Leia a seguir, a reportagem do Globo Repórter de 18/03/05:
“Um grupo de amigos celebra o encontro. Taças de vinho são erguidas num gesto festivo e vozes animadas repetem juntas o velho brinde: ”Saúde!”. A saudação nunca foi tão verdadeira. Pois é isso mesmo que médicos e pesquisadores estão descobrindo: uma taça de vinho esconde mais do que sabor e prazer – é uma fonte de saúde.
As uvas saem das lavouras e vão direto para as bancadas dos laboratórios, consultórios e hospitais e se transformam em receita médica.
O comprador Augusto Andreolla sabe tudo sobre comida: preparar, comer, comprar. Há 20 anos ele trabalha com alimentação. É o responsável pela escolha dos fornecedores e das mercadorias usadas em um restaurante em São Paulo. Cercado de tentações, passou dos limites.
"Como gaúcho e descendente de italianos, gosto de uma boa carne gordurosa", conta ele.
Resultado: colesterol nas alturas. "Assusta, porque o colesterol é uma coisa gravíssima", diz Augusto.
Ordens do médico: mudança radical. Alimentos mais leves e saudáveis e novos hábitos: "O médico me recomendou uma taça de vinho tinto no almoço e outra no jantar".
"Com freqüência, peço para pacientes que têm o hábito de tomar uísque trocarem a bebida pelo vinho", diz o endocrinologista Antônio Carlos Nascimento.
Medida simples, resultado comprovado. O vinho fez despencar a taxa de colesterol de Augusto.
"No dia 9 de janeiro, meu colesterol estava em 281. Fiz um exame novamente no dia 23 de abril, e ele havia baixado para 217. Depois, no dia 17 de agosto, fora para 201. No último exame que eu fiz, a taxa está em 180", relata Augusto.
O vinho ajuda, mas na dose certa. É o chamado consumo moderado: uma taça de 100 mililitros para as mulheres e duas para os homens. Os médicos assinam embaixo.
"Eu bebo vinho regularmente – e moderadamente. Tenho certeza que isso faz bem. E os trabalhos científicos têm demonstrado isso", ressalta o médico.
No Laboratório de Aterosclerose do Instituto do Coração (Incor), em São Paulo, 16 pacientes, todos com altas taxas de colesterol, foram submetidos a um teste de reatividade vascular – um método que avalia a capacidade de dilatação da artéria do braço. Pode-se dizer que o que acontece nessa artéria é muito semelhante ao que se passa na artéria coronária.
Cada paciente fez uma primeira medição. Depois, ficou 15 dias tomando vinho e suco de uva em quantidades controladas pelos médicos. O índice de dilatação normal dessa artéria é de 8% a 10%. Mas, na segunda medição, os resultados surpreenderam.
"A capacidade de o vaso de dilatar foi acima de 14%. Foi uma variação a mais de 4% além do que o vaso conseguia dilatar sozinho", explica a pesquisadora do Incor Silmara Coimbra.
Mas como o vinho age no coração? Essa era a questão que intrigava o cardiologista Protásio Lemos da Cruz, do Incor. O ponto de partida de suas pesquisas, como as de outros cientistas em vários países, é o que acontece na França.
"Em todos os países, há uma relação direta entre a quantidade de gordura que as pessoas comem na dieta e a ocorrência de doença coronária. Quanto mais gordura mais doença coronária e mais morte por causa disso. Em certas regiões da França, é um pouco diferente. As pessoas comem grande quantidade de gordura e a mortalidade por doença coronária é baixa", diz o médico.
A explicação poderia estar no vinho que os franceses têm o hábito de beber regularmente. Para comprovar a teoria, foram convocados três grupos de simpáticos colaboradores: coelhos.
O primeiro grupo foi alimentado com uma dieta rica em colesterol. O segundo grupo recebeu dieta igual mais uma dose de vinho tinto equivalente a duas taças no consumo humano. E, finalmente, o terceiro grupo foi alimentado da mesma maneira, mas consumiu vinho sem álcool, para esclarecer uma dúvida: era o vinho ou era o álcool o responsável pelo efeito? Depois de três meses, as conseqüências eram visíveis na artéria aorta dos coelhinhos.
"Do total da área da aorta, 67% estavam cobertos de placas de aterosclerose só com a dieta. Nos animais que fizeram a dieta com vinho, essa porcentagem se reduziu a 37%. E no grupo de animais que se alimentaram só com produtos não alcoólicos do vinho, a redução foi de aproximadamente 45%”, revela o médico.
Mas um dado em especial chamou a atenção: a dieta fez o índice de colesterol subir muito nos três grupos. No grupo de coelhos que tomou vinho, o colesterol não baixou, mas as placas de gordura se formaram em quantidade muito menor.
Para entender esse mistério, é preciso conhecer dois elementos de nomes estranhos contidos no vinho tinto: o resveratrol e os flavonóides.
O resveratrol elimina as plaquetas que provocam coágulos e entopem as artérias, e os flavonóides são antioxidantes, inibem a formação dos radicais livres, que provocam o envelhecimento das células e, por conseqüência, deixam o organismo mais vulnerável a doenças. A prova final da eficácia desses elementos químicos veio com voluntários.
O mesmo teste feito em coelhos foi aplicado em homens e mulheres. Os resultados foram iguais: diminuição nas placas de gordura sem alteração de outros índices.
"De maneira semelhante ao que nós tivemos nos coelhos, não houve nenhuma alteração de colesterol, de açúcar, de treglicérides, de LDL ou de HDL durante o período de observação. A conclusão a que nós chegamos é que o que há de importante realmente no vinho tinto não é o álcool, são os flavonóides", explica o cardiologista do Incor.
Mas se o vinho faz tão bem para a saúde e o que importa nele é a uva e não o álcool, por que não adotar o suco de uva? A resposta pode vir de uma clínica geriátrica de Porto Alegre, onde a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) pesquisa o poder do suco na dieta alimentar.
Trinta e três pessoas com idades entre 68 e 99 anos vivem na casa. Além do cardápio saudável, no fim do ano passado uma novidade foi incluída nas refeições: um copo de suco de uva duas vezes ao dia. A intenção é aumentar o HDL, o chamado colesterol bom, e baixar o índice de colesterol total. Todo mundo gostou.
"Isso já está se tornando um hábito. E nós estamos nos sentindo muito bem dispostos", afirma Carmem Gomes Victória, de 72 anos.
A nutricionista Simone Dal Bosco acompanha a pesquisa dia a dia. Os resultados finais só saem em dois anos, mas os primeiros números já entusiasmam.
"Essas evidências mostram que alguns idosos que tinham o HDL em torno de 38 a 40 passaram para 45 a 48. Então, essas primeiras evidências são bem animadoras. O colesterol total também teve diminuição. Baixou de 190 a 200 para cerca de 170", diz a nutricionista.
Mas enquanto no refeitório o grupo tomava lanche, nos quartos, foi descoberta uma informação valiosa: tem gente que, além do suco, está tomando é um copinho de vinho mesmo.
Dona Rosa Blanca Rossi da Silva tem inacreditáveis 94 anos e um hábito de tomar vinho que começou muito cedo.
"Quando era menor, eu tomava suco de uva. Quando fiquei maior, era um pouquinho de vinho. Sempre pouquinho", conta ela.
Perfeitamente lúcida, muito conservada, dona Rosa não se queixa de nenhuma doença e vive feliz esta etapa da vida. Faz planos de chegar aos 100 anos. E recomenda: uma dose diária de vinho faz muito bem – para o corpo e para a alma.
"Creio que todas as pessoas que não tiverem problemas de saúde devem tomar um copinho para ficarem bem, porque parece que na França há pessoas muito velhas e que estão perfeitamente sãs e tomam vinho todos os dias. Tomado moderadamente, não pode fazer mal. Estou convencida disso, se não eu já estaria morta", comenta dona Rosa.
Dona Cassalina Mendel, com 99 anos bem vividos, concorda. O vinho é seu companheiro nesta longa jornada.
"Sempre tomei vinho. Não fico tonta, de jeito nenhum", garante dona Cassalina.
E não fica mesmo. Prova é a grande performance de dona Cassalina: ela abaixa e encosta as mãos nos pés sem dobrar os joelhos. Depois levanta, rindo.”
Click aqui e leia publicação de 2002, sobre a vitivinicultura da região.
Leia a reportagem “Rio Grande do Sul produz a melhor safra de vinhos em 30 anos”. Zero hora de 26/03/05, páginas 4 e 5:

Safra para os deuses
A estiagem somada à tecnologia aplicada nos vinhedos leva a Serra a produzir o seu melhor vinho nos últimos 30 anos
FELIPE BOFF/ Agência RBS/Bento Gonçalves
A seca que devastou boa parte da agricultura gaúcha foi, para os vinhedos, quase uma bênção. Os grãos de uva se deleitaram por quatro meses ao sol como os veranistas à beira-mar. O resultado estará, em breve, nas garrafas. A safra de vinhos 2005 já está sendo considerada por especialistas do ramo a melhor dos últimos 30 anos - ou de até onde a memória alcança.
O mérito, porém, está longe de ser todo do clima. O entusiasmo dos vinicultores com o que vão colher este ano se deve também muito ao esforço que fizeram para aplicar uma nova mentalidade à produção de uvas na Serra. A mudança, que começou a ganhar força há menos de uma década, derrubou velhos conceitos e exigiu grandes investimentos para se chegar a vinhos de maior qualidade.
- É até ruim de a gente comentar, mas, para o vinho, a estiagem foi muito boa. E unindo o tempo favorável e a tecnologia aplicada ao vinhedo chegamos ao supra-sumo, que é a safra de 2005 - afirma Dirceu Scottá, presidente da Associação Brasileira de Enologia (ABE).
- O clima só veio e assinou embaixo de todo esse trabalho - atesta o diretor executivo do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), Carlos Paviani.
Esse gosto de vitória só deve chegar à boca dos consumidores a partir do final do ano - caso dos vinhos brancos e dos tintos jovens - ou, em algumas garrafas, apenas em 2007 ou 2008.
- A qualidade desta safra é muito superior à da Argentina e do Chile - vibra Carlos Eduardo Nogueira, diretor de marketing e exportação da Miolo, que investiu R$ 42 milhões nos últimos cinco anos para aperfeiçoar seus produtos.
O desafio de enfrentar os estrangeiros
Se o vinho brasileiro estará realmente melhor do que os concorrentes estrangeiros só vai se descobrir quando se abrirem pipas e barricas para o engarrafamento. O certo é que o desafio de batê-los no mercado está cada vez mais difícil. Sem taxas de importação ou com tarifas reduzidas, além de ter um sistema de produção mais competitivo, os hermanos avançam no mercado nacional. E têm, como outra vantagem, a regularidade das safras - algo que começou a ocorrer na Serra. Os mais saborosos vinhos gaúchos são de 1991, 1999, 2002 e 2004.
- Parece que está encurtando o tempo entre uma colheita de qualidade e outra - avalia Antonio Czarnobay, gerente técnico da Aurora.
Com a generosidade climática e o maior preparo dos produtores, uma doce previsão embriaga o setor:
- Não tenho dúvida de que, daqui para frente, teremos mais boas surpresas - diz Scottá.
( felipe.boff@jornalpioneiro.com.br )
Por que melhorou
* Os benefícios climáticos
* Mais açúcar
* A falta de chuva permitiu que as uvas atingissem concentração maior de açúcares, o que significa teor alcoólico mais alto na vinificação. Não será preciso adicionar açúcar de cana para corrigir a graduação da bebida.
* Melhor maturação
* A constância do clima quente permitiu melhor controle da colheita. Produtores puderam deixar as uvas nas parreiras até que alcançassem a melhor maturação fenólica, o que vai aprimorar o gosto, a coloração e o aroma dos vinhos.
Os avanços tecnológicos
* Novos sistemas de condução
* Produtores estão substituindo o sistema latado - mais tradicional - por novos sistemas de condução das videiras, como o Y ou o de espaldeiras, que permitem melhor exposição dos grãos ao sol.
* Menos quantidade, mais qualidade
* Parte dos cachos é retirada dos parreirais na poda verde - quando estão brotando - e no raleio. Assim, o grão recebe mais nutrientes da planta, pois precisa dividi-los com menos cachos
* Importação de mudas
* Os vitivinicultores estão plantando variedades mais resistentes a pragas e fungos, o que garante mais segurança na produção.
* Qualificação nas vinícolas
* Cantinas investem mais para aperfeiçoar o processo de vinificação, controlando melhor a temperatura e a seleção das uvas.
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