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Jornal ZERO HORA de 27/03/05:

Fronteira: o supermercado das armas 
ZH foi ao Uruguai e à Argentina para comprovar a facilidade com que brasileiros podem comprar armamento proibido 
HUMBERTO TREZZI 


Fuzis com projéteis capazes de atravessar muros em seqüência. Pistolas com balas de aço e uso proibido em território brasileiro. Rifles de repetição que permitem matanças em alta velocidade. Todo este arsenal, um supermercado bélico, está ao alcance de qualquer gaúcho. Basta cruzar uma rua ou uma ponte na fronteira, conforme repórteres de ZH constataram durante a semana. 

São 1.727 quilômetros de fronteira que o Rio Grande do Sul partilha com o Uruguai e a Argentina. Nas lojas dos países vizinhos, é possível comprar fuzis destinados à caça, mas verdadeiras máquinas de matar se usados por criminosos. Pode-se adquirir pistolas de calibres proibidos no Brasil sem exigências além de dólares à vista. Por vezes, nem é preciso cruzar a linha divisória. Basta encomendar e esperar em casa. 

É para mostrar a anatomia desse crime que a Câmara dos Deputados criou a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Tráfico de Armas, inaugurada há 10 dias. 

Os trabalhos vão tocar num nervo exposto da sociedade: a violência. A cada dia, cem brasileiros perdem a vida atingidos por armas de fogo e outros 500 são feridos. 

Essa sangria atinge um dos segmentos mais produtivos da sociedade - homens dos 20 aos 35 anos. Grande parte dos instrumentos dessa violência, as armas, dribla a campanha do desarmamento proposta pelo governo. Levantamento feito no Rio mostra que 24% das armas apreendidas são estrangeiras. Fruto de contrabando, ingressam no país por meio das nove tríplices fronteiras que o Brasil partilha com países vizinhos. 

Algumas longe dos gaúchos, como a Cabeça do Cachorro (onde o território brasileiro encontra o Peru e a Colômbia). Outras no Estado, como Barra do Quaraí, vizinha da uruguaia Bella Unión e da argentina Monte Caseros. O mais conhecido desses paraísos do contrabando é a fronteira Argentina-Paraguai-Brasil situada junto à cidade de Foz do Iguaçu (PR). A região ganhou a primeira delegacia da Polícia Federal (PF) especializada em Contrabando de Armas no país. 

Na fronteira com o Uruguai, em Rivera, um corretor gaúcho já foi processado três vezes por tráfico de armas - dois resultaram em cumprimento de pena. Em uma das ocasiões, o corretor foi acusado de mandar do Uruguai ao Brasil um AK-47 por sedex. 

A porosidade nessas regiões é tamanha que a CPI ainda não sabe por onde começar. Os deputados vão se reunir três vezes por semana. O próximo convidado é o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que deve abastecer os parlamentares com os dossiês da PF sobre o comércio da morte. 

Fuzis ao alcance de gaúchos 
FÁBIO SCHAFFNER/ Enviado Especial a Melo/Uruguai 

A decoração é imponente. Na parede, repousa um fuzil similar ao AR-15, capaz das mesmas proezas. Na vitrina, rifles com mira telescópica dividem espaço com barras de sabão arrombadas por tiros. No balcão, uma pistola 9 mm espera compradores. Em Melo, cidade uruguaia a 50 quilômetros da gaúcha Aceguá, a proibição da venda de armas a estrangeiros é letra morta. 

- O pagamento é à vista, claro - exige o vendedor da Todo Armas, uma pequena loja no número 824 da Rua Rincón Artigas. 

Afastada do centro e ocupando uma peça com pouco mais de 20 metros quadrados, a loja guarda um arsenal. É legalizada, como atesta o alvará. Mas foi lá que, em abril de 2000, um vendedor recitou à equipe de ZH o mantra fronteiriço da contravenção: "Com dinheiro, onde há lei há trampa". Na época, as lojas "emprestavam" o nome de um uruguaio para que o brasileiro pudesse comprar armas. 

Agora, está mais fácil. Por US$ 650 (R$ 1,78 mil) é possível sair carregando na cintura a 9 mm exposta no balcão. No Brasil, a pistola tem venda proibida e uso restrito às Forças Armadas e a policiais. Com um pouco mais - US$ 950 (R$ 2,61 mil) -, leva-se um fuzil calibre .243, de fabricação americana e munição comprida e pontiaguda. 

- É uma maravilha. Tem alcance de mais 300 metros e mata por qualquer lado - elogia o vendedor. 

Detalhe: a arma é usada. 

- As novas são caras. Uma delas deve estar custando US$ 1,9 mil - justifica o atendente. 

Ele exibe um rifle checo BRNO calibre .22 Magnum, de segunda mão. Há pentes de munição com capacidade para cinco ou 10 tiros. Para quem duvida do poder de fogo de um .22, o vendedor aponta para barras de sabão expostas na vitrina. Como se fossem parte do mostruário da loja, espessos tijolos de glicerina nas cores azul, âmbar e verde estão deformados pelos tiros. De um lado, apresentam um pequeno furo. Do outro, um rombo esgarçado. 

A jóia bélica da Todo Armas, contudo, não tem preço. Sozinho numa parede dos fundos da loja, o AR-15 é, na verdade, uma réplica pirata do fuzil calibre 5.56 americano. Usa munição .22 e tem capacidade para 15 tiros. 

- Esse era usado pelos soldados americanos nos exercícios, antes de irem à guerra. Só que não está à venda. É meu - desconversa o vendedor. 

E para cruzar a fronteira com uma arma dessas? Ele sorri com a boca fechada, entorta o pescoço para esquerda, arqueia as sobrancelhas por trás dos óculos e ressalva: 

- Quem pára é a (polícia) brasileira. Se passar... 

Na terça-feira, ZH percorreu 450 quilômetros na região sem sofrer abordagem policial. 

Revólveres para brasileiros sem restrições em Libres 
MAURO MACIEL/ Correspondente/Uruguaiana 

A facilidade com que uma arma pode ser adquirida na fronteira do Brasil com a Argentina foi comprovada na manhã de quarta-feira. A pedido de ZH, um taxista de Uruguaiana procurou a loja de armas e munições Barbus Caza y Pesca em Paso de los Libres e se mostrou interessado em comprar e levar armas para o Brasil. A negociação, gravada, não levou mais do que dois minutos. 

- A atendente sequer exigiu documentos, porque a arma não iria sair em meu nome - explica o taxista brasileiro. 

A atitude, segundo o comandante Aníbal Astorga, responsável pela fiscalização da Gendarmeria Nacional na aduana de Libres, contraria a lei daquele país. 

- Nenhuma loja argentina pode vender armas a estrangeiros sem autorização. Se ocorrer a venda irregular, o estabelecimento é fechado pela Gendarmeria - diz o comandante.

A negociação 
Contrariando a lei argentina, a balconista não exigiu qualquer documento do taxista brasileiro, conforme diálogo a seguir: 
Taxista - Bom-dia. Custa quanto um 38? Eu sou brasileiro. 
Balconista - Arma nova, não. Temos só de segunda mão. Mas nova, não. 
Taxista - E arma para caça? 
Balconista - Nada, nada, nada. Só arma de segunda mão, nada mais. 
Taxista - Eu posso comprar uma? 
Balconista - Sim, de segunda mão, sim. Mas nova, não. 
Taxista - E quanto custa uma arma de caça de segunda mão? 
Balconista - No momento, só temos um 38 e uma pistola 29. 
Taxista - Quanto tá o 38? 
Balconista - R$ 600. 
Taxista - Eu posso comprar e levar? 
Balconista - Sim, pode comprar e levar na hora. Ah, de caça tenho uma calibre 12 que custa R$ 1,2 mil. Essa é para comprar e levar agora. É a única que temos de caça. 

Estado está na mira da CPI 

O único Estado brasileiro onde o comércio legal de armas aumentou nas últimas décadas é o Rio Grande do Sul, conforme pesquisa da ONG Viva Rio. 

O número de armas saltou de 186 para cada mil domicílios (entre os anos de 1986 e 1994) para 276 armas para cada mil domicílios (entre 1995 e 2003). O segundo lugar ficou com Santa Catarina, com 24 armas para cada mil domicílios, seguida do Rio de Janeiro, com 17 por mil. Os fundamentos deste apreço pelas armas entre os gaúchos seriam culturais (prática da caça), econômicos (roubo de gado) e até a facilidade (aqui se concentra a maioria das fábricas de armamento do país), explica o cientista social Pablo Dreyfuss, autor da pesquisa. 

Essa é uma das razões para deslocar a CPI do Tráfico de Armas para o Rio Grande do Sul, diz o deputado federal gaúcho Paulo Pimenta (PT), relator da comissão. 

- Vamos investigar como aviões levam armas da fronteira gaúcha para os países andinos e voltam com drogas - adianta Pimenta.

Contraponto 
O que diz o delegado José Antônio Dornelles, da Delegacia Federal de Repressão ao Tráfico Ilícito de Armas no Estado: 
"Sabemos que no Uruguai e na Argentina são vendidas armas de uso proibido no Brasil, restrito apenas a policiais e às Forças Armadas. É um problema, porque o que é proibido aqui é liberado lá. Existe todo um esforço diplomático do Brasil para tentar uniformizar a legislação sobre armas no Cone Sul. O Uruguai até tem projeto de adotar mais restrições, mas a lei ainda permite calibres vetados no Brasil. E aí ocorre o contrabando formiga. Nossa maior preocupação é o contrabando em larga escala. Nossa delegacia é nova, mas em outros Estados, as investigações estão mais adiantadas." 

Revista Veja de 30/03/2005: 
(trecho)

Idéias que paralisam

Governos, empresas e pessoas
tornam-se reféns de pensamentos
que impedem a ação. Cuidado com eles! 


João Gabriel de Lima 

Montagem com fotos de Edison Russo/Pedro Rubens


O escritor francês Gustave Flaubert, autor de Madame Bovary, concebeu pouco antes de sua morte, em 1880, um Dicionário de Idéias Feitas. Seu propósito era zombar dos clichês de seu tempo – por exemplo, a idéia de que a calvície era sinal de inteligência, ou de que países tropicais eram habitados por gente preguiçosa. Se vivesse hoje, talvez ocorresse a Flaubert fazer outro tipo de lista, tendo como tema uma praga dos tempos atuais – as idéias paralisantes. Como o século XIX, a época atual tem seus clichês. A diferença é que, magnificados pelo bombardeio da informação, eles se transformam em falsas unanimidades que atrapalham a vida das nações e dos indivíduos. 

Com tantos livros de auto-ajuda no mercado, é curioso que não exista tratado a respeito das idéias paralisantes. Talvez porque a maior parte dos livros de auto-ajuda esteja empenhada em reforçá-las. Mas é fácil verificar que elas nascem de visões ideológicas ultrapassadas, do conformismo intelectual, da incompetência ou da simples e pura preguiça de pensar. Na psicologia, quem mais se aproximou do assunto foi o americano Aaron Beck, fundador da linha cognitiva, que formulou o conceito de "pensamento automático". De acordo com Beck, como o cérebro humano não é capaz de analisar detalhadamente cada situação, ele cria alguns esquemas prévios e se vicia neles. Às vezes esse vício é tão forte que o cérebro deixa de levar em consideração os dados da realidade, criando as "distorções cognitivas". Um exemplo citado por Beck: um homem premido pela dificuldade de arranjar um emprego pode achar que possui qualificações insuficientes, mesmo que tenha um mestrado em Harvard. Os psicólogos da corrente cognitiva gostam de dizer que suas teorias se alicerçam no filósofo estóico Epicteto, que viveu no Império Romano no século I d.C. Epicteto escreveu: "O que perturba os homens não são as coisas em si, mas as idéias que os homens têm a respeito delas". O que perturba e paralisa. 



NA POLÍTICA 

A idéia: "O Brasil jamais será um país desenvolvido, com justiça social, se não fizer uma reforma agrária."
Por que é paralisante: Isso podia ter alguma dose de verdade no início do século XX, quando a economia se baseava na agricultura e a população brasileira era predominantemente rural. Hoje, com uma economia de forte perfil industrial, uma produção agrícola que é fruto de um intenso processo de mecanização e mais de 85% dos cidadãos vivendo em cidades, essa é uma idéia absolutamente fora do lugar. O que o país precisa para desenvolver-se e promover a justiça social é de mais educação e empregos dignos. Por que condenar um sem-terra a viver no campo se, com um trabalho na cidade, ele pode ganhar mais com uma rotina menos estafante, além de estar mais próximo de escolas para os filhos e hospitais para a família? Distribuir terra é mais caro e menos efetivo, do ponto de vista do desenvolvimento da nação, do que garantir uma boa instrução escolar a todos e proporcionar crédito para a criação e ampliação de pequenos negócios. Além disso, há cada vez menos terras a ser distribuídas no Brasil. A maior parte delas está nas mãos da agroindústria, que exporta, gera divisas para o país e proporciona alimentos de melhor qualidade e mais baratos para a população. 

A idéia: "O Brasil tem 44 milhões de famintos e, diante dessa hecatombe social de proporções africanas, não há muito que fazer."
Por que é paralisante: Porque impede a adoção de programas eficazes para o combate à fome no Brasil – aqueles que exigem apenas ações localizadas. Não existe nenhum levantamento quantificando o número de portadores de carência alimentar no Brasil, mas certamente ele está muito longe dessa cifra mastodôntica. O estudo mais confiável, realizado pelo IBGE, identificou somente 3,8 milhões de brasileiros abaixo do peso, e em áreas do país muito bem delimitadas. Grande parte, inclusive, está acima do peso – ou seja, não sofre de fome, mas de falta de educação alimentar. Irritado com a divulgação do estudo do IBGE, o economista José Graziano, idealizador do Fome Zero, aumentou a cifra de brasileiros famintos ainda mais – para 77 milhões. Em vez de tentar elucidar as cifras, o governo petista tentou amordaçar o IBGE. Não conhecer as reais dimensões de um problema é o primeiro passo para não resolvê-lo. 

Montagens sobre ilustração de Gize com fotos de Photodisc



A idéia: "A violência no Brasil não é um problema de polícia. É antes de tudo uma questão social."
Por que é paralisante: É certo que a violência tem raízes também na questão social – mas são múltiplos os motivos que a determinam. Contribuem para ela a corrupção e a falta de treinamento e de equipamento dos policiais, a ausência de uma polícia de fronteira que consiga diminuir o contrabando de armas e drogas para dentro do território brasileiro, a leniência dos governantes com os bandidos, a lentidão do sistema judiciário brasileiro e o excesso de recursos legais disponíveis para colocar um criminoso fora das grades. Ou seja, é possível, sim, diminuir a violência antes de resolver os problemas sociais, que demandam tempo. Uma cidade como Bogotá, na Colômbia, reduziu drasticamente seu índice de assassinatos por 100 000 habitantes, apenas aparelhando melhor a polícia e integrando-a na comunidade. Há sete anos, esse índice era igual ao do Rio de Janeiro (na casa dos 70 assassinatos por 100 000 habitantes). Agora, está na faixa de 25.


 

 

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